Sustentabilidade

O Futuro: Entre a Utopia Verde e os Desafios Reais

A tecnologia blockchain teve um início paradoxal em sua relação com a sustentabilidade. Nascida com o Bitcoin, foi (e muitas vezes ainda é) criticada por seu voraz consumo de energia, parecendo mais um problema ambiental do que uma solução. No entanto, à medida que a tecnologia amadureceu e evoluiu para além das criptomoedas, uma nova narrativa emergiu: a do blockchain como uma ferramenta fundamental para a transparência, a responsabilidade e a coordenação necessárias para enfrentar nossos maiores desafios ambientais. Olhar para o seu futuro na sustentabilidade é navegar entre uma visão de utopia verde e os desafios pragmáticos que precisam ser superados para que essa visão se torne realidade.

As oportunidades que se consolidam são transformadoras, a mais madura delas é a transparência radical nas cadeias de suprimentos. No futuro próximo, será comum que produtos de consumo, de alimentos a roupas, venham com um "passaporte digital". Com um simples scan, teremos acesso a toda a jornada do produto, verificando sua origem, as condições de trabalho envolvidas em sua produção e sua pegada de carbono, mudando o poder para as mãos dos consumidores, forçando as empresas a uma responsabilidade sem precedentes.

Outra área de imenso potencial é a criação de mercados de carbono e ambientais verdadeiramente funcionais e globais. A capacidade do blockchain de criar ativos digitais únicos, verificáveis e facilmente transferíveis (tokens) resolverá os problemas de liquidez, transparência e dupla contagem que assolam os mercados atuais. Isso irá democratizar o acesso, permitindo que pequenos proprietários de terras, cooperativas e projetos comunitários participem e sejam recompensados por suas contribuições ecológicas, seja através do reflorestamento, da agricultura regenerativa ou da conservação da biodiversidade. Veremos assim,  o florescimento de um sistema financeiro regenerativo (ReFi), onde o capital flui naturalmente para projetos que curam o planeta.

A governança descentralizada, por meio das DAOs (Organizações Autônomas Descentralizadas), também abrirá novas fronteiras, podemos vislumbrar DAOs multinacionais gerenciando bens comuns globais, como aquíferos ou zonas de pesca em alto mar. As regras para o uso sustentável desses recursos seriam codificadas em contratos inteligentes, e as decisões seriam tomadas de forma transparente pelos stakeholders. Isso representa uma alternativa aos acordos internacionais, muitas vezes lentos e de difícil fiscalização, oferecendo um modelo de governança mais ágil, participativo e diretamente executável.

No entanto, o caminho para essa utopia verde é pavimentado com desafios significativos que exigem uma abordagem crítica e honesta. O primeiro e mais conhecido, é o paradoxo da energia. Embora grande parte do seu ecossistema já tenha se movido para mecanismos de consenso de baixo consumo de energia, como o Proof-of-Stake (PoS), o legado do Proof-of-Work (PoW) do Bitcoin ainda lança uma sombra. O futuro exige um compromisso de toda a indústria com a eficiência energética e o uso de fontes renováveis para alimentar a infraestrutura da rede.

O segundo grande desafio é a escalabilidade e a interoperabilidade, visto que, para criar um livro-razão global para a sustentabilidade, as diferentes redes blockchain precisam ser capazes de se comunicar de forma segura e eficiente. Um crédito de carbono tokenizado em uma blockchain precisa ser reconhecido e negociado em outra. Soluções de "camada 2" (Layer 2) e protocolos de interoperabilidade estão em desenvolvimento, mas ainda não atingiram a maturidade necessária para uma adoção em massa.

Em terceiro lugar, há o desafio da ponte entre o digital e o físico. A máxima "garbage in, garbage out" é particularmente pertinente aqui, a sua imutabilidade é inútil se os dados iniciais forem falsos. Como podemos garantir que um sensor de IoT medindo a qualidade da água não foi adulterado? Como verificamos, em escala, que as árvores correspondentes a um token de reflorestamento foram realmente plantadas e estão crescendo? A solução exigirá uma fusão robusta de blockchain com outras tecnologias como IA, sensoriamento remoto por satélite e oráculos (serviços que fornecem dados do mundo real para contratos inteligentes) confiáveis.

Por fim, contudo, todavia há o desafio humano: adoção e usabilidade. A tecnologia ainda é complexa e pouco intuitiva para o usuário comum, onde para que um agricultor no interior do Brasil possa tokenizar sua safra sustentável, as ferramentas precisam ser tão fáceis de usar quanto um aplicativo de mensagens. Superar a exclusão digital e garantir que os benefícios dessa tecnologia cheguem àqueles na linha de frente da conservação e não apenas a traders de tecnologia, é talvez o maior desafio de todos. É necessário uma soberania digital para TODOS.

Ao meu ver, a sustentabilidade não reside na crença de que a tecnologia resolverá tudo magicamente, ela reside no reconhecimento do blockchain como uma camada de infraestrutura fundamental, como foi o TCP/IP para a internet. É uma ferramenta para construir sistemas mais transparentes, equitativos e eficientes e seu sucesso dependerá da colaboração entre tecnólogos, cientistas ambientais, legisladores, empresas e comunidades locais. Precisamos construir pontes, estabelecer padrões e acima de tudo, projetar essas novas ferramentas com uma intenção clara: alinhar a prosperidade econômica com a saúde do nosso planeta. A jornada é complexa, mas o potencial para reescrever as regras da nossa interação com o meio ambiente torna o esforço não apenas válido, mas essencial para um futuro sustentável, o meu, de minhas filhas e de todos nós.

Muitos bons ventos!