Sustentabilidade

Blockchain, metaverso e sustentabilidade: Construindo mundos virtuais com impacto real positivo

O metaverso… Para alguns, uma utopia digital imersiva, para outros, uma distopia de ficção científica se tornando realidade. Independentemente da perspectiva, a marcha em direção a mundos virtuais persistentes e interconectados parece inevitável.

Mas enquanto nos maravilhamos com as possibilidades de avatares, economias digitais e experiências imersivas, uma questão fundamental emerge: qual será o custo ambiental dessa nova fronteira? E, considero o mais importante, como podemos garantir que o metaverso não se torne apenas mais um fardo para um planeta já sobrecarregado? A resposta pode estar na sua tecnologia fundamental : blockchain e em uma abordagem de design que priorize a sustentabilidade desde o primeiro dia.

A conexão entre eles e a sustentabilidade é uma via de mão dupla, repleta de paradoxos e promessas, onde blockchain serve como a espinha dorsal para um metaverso aberto e descentralizado. Ele garante a propriedade real dos ativos digitais (através de NFTs), possibilita economias funcionais e estabelece uma camada de confiança sem a necessidade de uma empresa controladora, como a Meta ou a Google. É o que diferencia um "jogo online gigante" de um verdadeiro metaverso, onde os usuários têm soberania sobre suas identidades e criações.

A primeira e mais óbvia oportunidade de sustentabilidade é a desmaterialização, pois metaverso tem o potencial de reduzir drasticamente a pegada de carbono de inúmeras atividades. Reuniões de negócios internacionais, conferências massivas, festivais de música e até mesmo o turismo poderiam acontecer em espaços virtuais fotorrealistas, eliminando a necessidade de viagens aéreas, construção de infraestrutura temporária e o consumo de recursos associado. A pandemia nos deu um vislumbre disso com as videochamadas, mas o metaverso promete uma sensação de "presença" e interação que poderia tornar a alternativa virtual muito mais atraente e eficaz. Já pensou em colaborar com um projeto de arquitetura manipulando um modelo 3D em tempo real com colegas de todo o mundo, sem que ninguém precise sair de casa? Pegou a visão?

Além da substituição de atividades físicas, ele pode ser um laboratório incomparável para a inovação sustentável, podemos criar "gêmeos digitais" (digital twins) de cidades inteiras para simular o impacto de novas políticas de transporte público, testar a eficiência de redes de energia renovável ou modelar os efeitos do aumento do nível do mar com uma precisão impressionante. Urbanistas, cientistas e formuladores de políticas poderiam colaborar nesses ambientes virtuais para projetar soluções mais resilientes e eficientes para o mundo real, antes de colocar um único tijolo ou gastar um único litro de combustível. O metaverso se torna uma sandbox para a sustentabilidade. 🫠

Sua economia, impulsionada por blockchain, também abre portas para novos modelos de financiamento para causas ambientais. Marcas poderiam vender roupas digitais (NFTs) para avatares, com uma porcentagem do lucro sendo automaticamente direcionada, via contrato inteligente, para projetos de reflorestamento. Artistas poderiam criar galerias de arte virtuais imersivas sobre a crise climática, com a venda das obras financiando diretamente ONGs na linha de frente da conservação. A conexão entre ação virtual e impacto real se torna direta, transparente e extremamente programável.

Contudo, minha animação colide com um desafio monumental: o consumo de energia. Manter mundos virtuais persistentes, com gráficos de alta fidelidade e acessíveis a milhões de usuários simultaneamente, exigirá uma quantidade astronômica de poder computacional. Os data centers que hospedarão o metaverso poderiam se tornar uma das maiores fontes de emissão de carbono do planeta, além disso, o hardware necessário para uma experiência verdadeiramente imersiva, tipo os  óculos de VR/AR, trajes hápticos, computadores potentes, levará a um aumento na produção de eletrônicos e, consequentemente, no lixo eletrônico (e-waste), um dos problemas ambientais mais tóxicos e de mais rápido crescimento, pior do que vemos hoje.

Este é o ponto crítico onde a consciência e o design intencional se tornam imperativos. A sustentabilidade no metaverso não pode ser um adendo; deve ser um princípio fundamental de sua arquitetura, visto que, primeiro, os data centers que o alimentam devem, por padrão, operar com 100% de energia renovável. Segundo, a economia do metaverso deve incentivar a circularidade. Blockchain pode ser usado para criar "passaportes de produto" para dispositivos de hardware, rastreando seus componentes desde a fabricação até a reciclagem, incentivando os usuários e fabricantes a participarem de uma economia circular. Terceiro, o próprio software e os protocolos do metaverso devem ser otimizados para a eficiência energética, um conceito conhecido como "computação sustentável".

A conexão entre blockchain, metaverso e sustentabilidade é portanto, um exercício de equilíbrio. Ignorar seu potencial para desmaterializar nossa economia e acelerar a inovação seria um erro. Mas construir essa nova realidade sobre as mesmas fundações extrativas e insustentáveis do mundo físico seria uma tragédia, ainda assim vejo em nossa capacidade de aprender com os erros do passado, uma chave.Temos a chance única de projetar um novo universo de interação humana desde o início, ao aproveitar a transparência que essa tecnologia traz, para criar economias regenerativas e ao exigir que a infraestrutura do metaverso seja ecologicamente responsável, podemos garantir que nossa jornada para o virtual não nos afaste do mundo real, mas nos dê novas e poderosas ferramentas para salvá-lo.

Muitos bons ventos!